
NOVO ESPETÁCULO! EM CARTAZ NO CCBNB
A CASA DO TAMANHO DO MUNDO
Dois irmãos se fecham em um pequeno cômodo depois que algo parece ter tomado parte da casa onde vivem. Márcio anota tudo o que vê, enquanto Irene experimenta e registra, em seu laboratório de escuta da terra, possíveis alianças entre diferentes espécies. À medida que a falta de energia se repete e ruídos vindos de baixo do chão passam a ocupar o espaço, histórias passadas começam a emergir, e os dois irmãos acompanham os sinais que atravessam esse espaço provisório. A casa, síntese de um cosmos particular, revela os mundos sobre os quais foi erguida, deixando entrever as marcas de uma catástrofe em curso.
UMA CRIAÇÃO, MUITAS COLABORAÇÕES
O projeto nasceu de um triplo desejo: fabular futuros em uma criação dramatúrgica que faz mundos com o real maravilhoso latino-americano; pesquisar o teatro como uma experiência de imersão visual e sonora; e investigar práticas de atuação com o fantástico de forma contaminada. Para a criação da dramaturgia, nos inspiramos na tensão compositiva que há entre invasão e expulsão, presente nos contos A casa tomada, de Julio Cortázar, e A respiração cavernosa, de Samanta Schweblin, como protoforma mítica para nossa ficção. Com material dos dois contos, construímos a ação da peça, que conversa também com narrativas e discussões ecofeministas, a fim de experimentar um cruzamento do real maravilhoso latino-americano com a ficção científica.
Neste novo trabalho, o grupo fabula futuros a partir da ideia de catástrofe ancestral trazida por Elisabeth Povinelli para encenar não uma catástrofe por vir, mas uma catástrofe que está em curso, se desdobrando no presente. Essa autora defende que ela começa nas despossessões e extrações coloniais das grandes navegações europeias e continua atravessando a terra, os corpos e as formas de vida. Como uma cicatriz que não fecha, ela deixa à vista a violência de um projeto liberal que tenta escapar das marcas e da toxicidade que ele mesmo produz.
Em A casa do tamanho do mundo, o Teatro Máquina aprofunda os projetos de Paraíso (2019) e Movediça (2023), para fazer sentir, ouvir, ver e imaginar, junto com seu público, possibilidades de futuro através do teatro, levando-o a ser perturbado por narrativas de contaminação interespecíficas (Tsing) que reúnem e embaralham experiências cultivadas em bolsas de histórias (Le Guin) para que os problemas sigam nos colocando problemas (Haraway).
Os artistas Alexandre Veras, Diogo Costa, Frederico Teixeira, Raro de Oliveria e Walter Façanha, parceiros do grupo em muitos trabalhos, também se somaram a esse projeto.

UMA EXPERIÊNCIA DE IMERSÃO VISUAL E SONORA
O campo de jogo limitado se configura em um espaço de cerca de 4 metros quadrados, demarcado por um carpete e composto por alguns móveis e arranjos com caixas de som, alto-falantes, plantas e vasos de vidro, entre outros elementos domésticos. Ao mesmo tempo quarto e laboratório, sombral e antessala, esse espaço é onde Irene, uma das personagens, desenvolve um sistema de escuta da casa. Para tanto, o cabeamento intencionalmente aparente se conecta ao músico, ao seu computador e à sua planossonância, ao mesmo tempo em que um fone de ouvido e um gravador também são fontes de pesquisa para as sonoridades que têm interessado à personagem da irmã.
As luminárias de pé e de mesa dão relativa autonomia luminotécnica ao espaço, já que, na segunda metade do espetáculo, a iluminação vai depender desses dispositivos para a criação de um claro-escuro que dê suporte à imaginação do que vem tomando a casa. A ideia é que se conforme, assim, uma certa independência dos refletores do teatro, o que cria intimidade e redimensiona a realidade vivida pelos irmãos.
Os atores travam entre si e com o público, disposto em duas laterais da cena, um jogo de narração e ação, mediado por sonoridades gravadas e amplificadas em tempo real. O objetivo é que seja compartilhada com a plateia uma experiência sonora, sobretudo, mas também visual, na qual o tempo é subtraído de sua qualidade cronológica.

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PRÁTICAS DE ATUAÇÃO COM O FANTÁSTICO
Corpo, som, tempo e espaço articulam-se na criação de estados de hesitação perceptiva, estranhamento e incerteza, nos quais se tornam instáveis as fronteiras entre o humano e o não humano, a presença e a ausência, a matéria e a imaginação. Portanto, para nós, o fantástico não se limita a um conjunto de temas ou convenções narrativas, mas constitui um modo de instaurar a instabilidade do real, convocando também o espectador a participar da suspensão das certezas. A atuação torna-se, assim, um território de instabilidade perceptiva, no qual diferentes regimes de realidade podem coexistir e a cena se abre àquilo que não se deixa apreender inteiramente, mas que insiste em aparecer.
O trabalho de atuação das atrizes Aline Silva e Loreta Dialla e do ator Márcio Medeiros é um dos objetivos centrais de investigação desta obra. A proposta parte da criação de duplos da mesma personagem, Irene, a irmã, a fim de destacar as singularidades de cada atriz, o que desafia o ator Márcio Medeiros a diferentes investimentos para a contracenação e oferece duas experiências para o público, já que as criações Aline-Irene e Loreta-Irene contaminam e se deixam contaminar na relação com o tempo e com o espaço ficcionais.
A Pessoa Bob, músico, performa a casa como personagem e se comunica com os outros artistas através de uma estrutura de espacialização do som aparente e com a criação, ao vivo, de sonoridades, ruídos e sonoplastia amplificadas.
Uma das premissas para fabular futuros a partir do real maravilhoso está na possibilidade de conceber mundos em que a espécie humana seja uma entre tantas a mobilizar imaginações políticas, e não a única. Os atores, ao darem voz aos personagens e se tornarem testemunhas e narradores de uma história, investigam a atuação distante de uma ideia de excepcionalidade humana, desenvolvendo uma escuta ampliada e assombrada diante das outras presenças que interatuam no campo de jogo criado.

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FABULAR FUTUROS PARA FAZER MUNDOS
Os personagens foram construídos ambiguamente, ora atraídos, ora resistentes às reivindicações das mutações ambientais e à sua ação furiosa. A terra, transfigurada no piso da casa que se rompe de forma fantástica, anuncia a chegada precipitada de uma força que os irmãos ainda não podem nomear. Mais que a água que encontra uma brecha e se espalha, essa ferida na pele da casa é a imaginação de um rio inteiro que irrompe de volta sobre uma das tantas habitações que formam as cidades e continuam sendo violentamente erguidas. A questão da propriedade atravessa a cena subterraneamente, à medida que aquilo que ocupa a casa é também a força que apresenta aos seus habitantes a urgência de reconhecer, nos problemas do presente, respostas e reparações às ações do passado.
A pesquisa traz a agência dramática de três personagens - a irmã, o irmão e a casa - em uma experiência de convívio e transformação. A casa é ambiente e sujeito da ação, veículo para manifestações de forças da terra ainda sem nome, mas também a propriedade que os dois herdam para viver. Sua voz e sua ação perturbam os irmãos e trazem à tona a constatação de que a crise climática não afeta a humanidade de forma igual: ela aprofunda desigualdades históricas de classe, gênero e raça.
Em A casa do tamanho do mundo, as forças que ocupam a casa dão mostras de sua presença pelo som e pela luz e reivindicam um lugar de diálogo com os outros personagens, abrindo espaço para a escuta e a atenção fantásticas. A história vivida pelos irmãos se passa em uma parte da casa. Essa parte, contudo, não é apenas um ambiente, mas suporte para a agência de existências que se anunciam. A casa se afirma como protagonista e dá voz a uma infinidade de personagens não humanos: sensível, imprevisível, responde às ações sobre a terra.
Na nossa ficção científica, o fantástico está nos personagens. Eles têm poderes: Irene pode escutar o que está chegando; Márcio pode ver o que está desaparecendo; e a casa se infiltra no sistema de escuta montado no quarto, dando voz ao que vem da terra. O problema se dá pela força incomum com que aquilo que escutam e veem se apresenta. Diante dela, os dois se veem forçados a rever suas posições e também a relação entre si. Para a irmã, que já se interessa por possíveis alianças entre diferentes espécies, a emergência dessas forças atiça sua curiosidade. Para o irmão, preocupado com o valor material da casa, a ameaça está em perdê-la. A casa, por sua vez, revida violentamente os arranjos históricos coloniais e perturba a rotina dos irmãos, acostumados a viver do que a família construiu.
Para fazer mundo, é preciso se dar ao trabalho de refazer continuamente o presente, um presente impregnado de passado. A criação dramatúrgica leva a sério a estrutura do drama e a investiga na criação de diálogos entre os sujeitos da ação. Testar os limites do teatro a partir dos limites do regime dramático como escolha compositiva é colocar em questão as relações interpessoais que constituem o drama quando uma outra existência passa a integrar a ação. Uma existência que ainda não cabe em uma definição, que se espalha e contamina, que se expressa na falta de luz, na imprecisão de um murmúrio abafado e em uma estranha umidade — e que exige talvez mais presença que protagonismo, sem falar a língua dos personagens humanos.
Ou os irmãos se interessam de verdade pelo que escutam e veem, ou não haverá convivência possível. Não se trata exatamente do que se passou, mas do que está se passando. Se uma história é contada novamente, é para que se possa escrever novas histórias e produzir novas políticas. Só herdamos a violência porque continuamos vivendo dela.
Se discutimos as questões que se interseccionam quando temos o problema do clima diante de nós e damos forma a isso na criação de uma ficção científica, é porque acreditamos que os elementos que compõem o dramático (as relações intersubjetivas e a criação de diálogos) podem sustentar a casa e os irmãos como três sujeitos da ação. Na nossa peça, não nomeamos essa força como natureza, porque não desejamos tratá-la como inerte, fonte de recursos ou objeto de pesquisa. No nosso real maravilhoso, Irene e Márcio aprendem a escutar o que acontece por baixo do chão, reconhecendo, nos movimentos da terra e nas marcas de uma transformação em curso, outras formas possíveis de coexistência.
Construídos os três personagens, a casa, a irmã e o irmão, nossa fabulação especula sobre a possibilidade de fazer mundos e de desenvolver formas outras de fazer teatro, porque entendemos que muito precisa mudar nas maneiras de contar histórias.

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52 sacos de chá secos. no potinho todo o chá que retirei de cada um dos 52 sacos. vão virar substrato pros terrários da irene e com os papéis vou fazer umas folhas do futuro cheias de passado.
13 de abril - inicio do trabalho de guardar os saquinhos de chá tomados.
13 de julho - 52 chás de vários sabores, várias marcas e vindos e/ou tomados em várias partes do mundo (buenos aires, lisboa, paris, fortaleza, londrina).
não pensei em abrir quando fizesse três meses exatos. me liguei da data agora, depois de abrir cada saquinho usado. achei mistério do planeta.

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FICHA TÉCNICA
Direção
Fran Teixeira
Assistência de direção
Loreta Dialla
Dramaturgia
Fran Teixeira e Teatro Máquina
Elenco
Aline Silva/Loreta Dialla, como Irene
Márcio Medeiros, como Márcio
A Pessoa Bob, como Casa
Produção
Fran Teixeira e Levy Mota
Desenho de som e paisagem sonora
A Pessoa Bob e Alexandre Veras
Cenografia
Alexandre Veras, Fran Teixeira e Fred Teixeira
Assistência de cenografia
Ana Vitória Almeida
Figurino
Diogo Costa
Iluminação
Walter Façanha
Ilustrações e projeto gráfico
Raro de Oliveira
Fotografias
Levy Mota
Direção
Fran Teixeira
Assistência de direção
Loreta Dialla
Dramaturgia
Fran Teixeira e Teatro Máquina
Elenco
Aline Silva/Loreta Dialla, como Irene
Márcio Medeiros, como Márcio
A Pessoa Bob, como Casa
Produção
Fran Teixeira e Levy Mota
Desenho de som e paisagem sonora
A Pessoa Bob e Alexandre Veras
Cenografia
Alexandre Veras, Fran Teixeira e Fred Teixeira
Assistência de cenografia
Ana Vitória Almeida
Figurino
Diogo Costa
Iluminação
Walter Façanha
Ilustrações e projeto gráfico
Raro de Oliveira
Fotografias
Levy Mota
