sala de ensaio

A ÚLTIMA CASA

Dois irmãos, Irene e Márcio, estão confinados em uma parte da própria casa. Depois que o irmão escutou um som estranho vindo de um cômodo da casa, os dois se isolaram em uma parte menor, o terraço do quarto de Irene, onde ela cultiva terrários. Nesse espaço reduzido, os dois permanecem em estado de alerta constante, sem saber ao certo o que provoca os ruídos que escutam. Aprisionados na própria casa, se movem entre a curiosidade e o medo. No tempo que resta aos dois ali, as memórias de uma vida toda eclodem como os sons e as presenças que anunciam a urgência de um novo tempo.
O espetáculo A ÚLTIMA CASA é o novo projeto do grupo Teatro Máquina, de Fortaleza, em coprodução com o Atelier Rural, do artista Alexandre Veras. Nesse espaço, espécie de laboratório audiovisual multifacetado que cruza tecnologia e práticas ecológicas com sede em Cascavel, a 40 minutos de Fortaleza, o grupo tem se reunido em imersões criativas aos finais de semana e lá tem desenvolvido o trabalho de encenação, atuação e dramaturgia, ao mesmo tempo em que pode experimentar luz e som com os aparatos técnicos do estúdio de foley, que também se torna uma sala de ensaio e de práticas corporais com ótimas condições técnicas. O projeto nasce de um triplo desejo: trabalhar com o real maravilhoso dos contistas latino-americanos, aprofundar a ideia de uma ficção científica para o teatro e pesquisar o teatro como uma experiência de imersão visual e sonora. Para a criação da dramaturgia, partimos da tensão compositiva invasão versus expulsão presente no conto A Casa Tomada de Julio Cortázar, como protoforma mítica para nossa ficção e construímos, assim, nossa ação contaminados também pela produção de outros autores e autoras do realismo maravilhoso latino-americano, a fim de experimentar um cruzamento desse gênero com a ficção científica. O tratamento político à questão da propriedade se dá subterraneamente, à medida em que o que ocupa a casa é a mesma força que apresenta aos seus moradores a urgência de reconhecer nos problemas do presente resposta e reparação às ações do passado. Em A Última Casa, o Teatro Máquina aprofunda os projetos de Paraíso (2019) e Movediça (2023), para fazer sentir e pensar junto com seu público possibilidades de futuro através do teatro, levando-o a ser perturbado por narrativas de contaminação interespecíficas (Tsing) que reúnem e embaralham experiências cultivadas em bolsas de histórias (Le Guin) para que os problemas sigam nos colocando problemas (Haraway). Fabular o futuro a partir do fantástico latino-americano é a forma que o Teatro Máquina vem perseguindo nessa nova produção, a fim de conceber mundos em que a espécie humana seja uma entre tantas a mobilizar imaginações políticas e não a única.
A encenação acontece em um campo de jogo limitado, íntimo e relativamente autônomo, no qual a narração, o diálogo dramático e experiências visuais e sonoras radicais se apresentam como desvios contranarrativos a regimes espetaculares que ainda se ancoram no conflito e na jornada do herói. O campo de jogo limitado se configura em um espaço demarcado de cerca de 3 metros quadrados composto por um tapete, uma pequena mesa de apoio e duas cadeiras. Ao mesmo tempo quarto e laboratório, sombral e antesala, esse espaço é onde Irene, uma das personagens, cultiva seus terrários e desenvolve um sistema de escuta da casa. Para tanto, quatro caixas de som são vistas em tripés dispostos nos cantos do que a cenografia delimita como parte da casa, com cabeamento intencionalmente aparente que se conecta ao músico, ao seu computador e sua noisebox, ao mesmo tempo em que um fone de ouvido também é fonte de pesquisa para as sonoridades que tem interessado Irene. As luminárias de pé e de mesa dão relativa autonomia cênica ao espaço, já que na segunda metade do espetáculo a iluminação vai depender desses dispositivos, demarcando os pequenos focos que revelam o que vem tomando a casa. A ideia é que se conforme assim uma certa independência dos refletores do teatro, o que cria intimidade e redimensiona a realidade vivida pelos irmãos. Os atores travam entre si e com o público um jogo de narração e ação, mediado por sonoridades amplificadas em tempo real. A ideia é que seja compartilhado com a plateia uma experiencia auditiva, sobretudo, mas também visual, na qual o tempo é subtraído de sua qualidade cronológica.